Nabor-2011
Às palavras eu me alio
quando a tristeza me adorna.
Preencho, assim, meu vazio
do que vazio me torna.
Esse vazio, entretanto,
trazem-me doces bafejos,
envolvendo em acalanto
as fontes dos meus desejos.
São elas que insuflam vida
neste meu ser acanhado
e em minha alma bandida,
que se compraz no pecado.
Foram elas o alor,
da Criação a altivez,
pois Deus apenas falou
e tudo isso se fez.
São as palavras que criam
até as grandes lacunas,
e que também propiciam
espirituais fortunas.
Como seria esse mundo
sem elas a explicá-lo?
Não seria o mais profundo
dos abismos a negá-lo?
Quando de existir deixarem
os que escrevem e os que falam,
e assim não mais revelarem
os mundos que se espiralam,
a quem tudo importará?
Quem a falta há de sentir
do que não nominará
a palavra que o seguir?
Quem dá existência aos mares,
aos rios e às cachoeiras,
aos montes e aos algares
são as palavras faceiras.
De pronto significado
ou sentido nebuloso,
reproduzem o estado
do sólido ou do gasoso.
Palavras são microscópicos
embriões efervescentes
em seus estados entrópicos
em busca de novas mentes
onde conceberem possam
ideias que nos alentam,
mas que agitam e alvoroçam,
assustam e afugentam.
Elas propõem mudanças
de consciência e posturas,
produzindo inseguranças
nas humanas estruturas.
Isso é que faz perigosos
os livros que as contêm,
pois muita vez são trelosos
e aos sistemas não convêm.
São as palavras travessas
que geram novas verdades,
novos rumos e revessas
alterando afinidades.
Causando grandes transtornos
no estado dito normal,
do bem pensar são adornos
no enredo universal.
Carentes de exatidão
e de acepções precisas,
promovem só confusão
às mentes não criativas.
São palavras de poetas,
filósofos, romancistas,
de místicos e profetas,
dramaturgos e anarquistas
que desestruturam leis,
princípios morais servis
e aviltam os próprios reis
com seus espúrios ardis.
Palavras que nos espreitam
nas esquinas e nas ruas
e, contudo, nos deleitam
como as fêmeas carnes nuas.
No entanto, fugidias,
tem vez que elas escapolem
provocando as arrelias
que nosso senso demolem.
Saio-lhes, pois, à procura
sem encontrar qualquer pista
de uma mínima abertura
a um pobre verbalista.
Quantas delas se perderam
ao longo de tempo tanto!
Algumas só se esconderam,
ampliando-lhes o encanto.
E depois dessas andanças,
elas me abraçam, me beijam.
Brincadeira de crianças!
Palavras! Bem-vindas sejam!