sábado, 26 de junho de 2010

A PRIMEIRA NOITE DE AMOR

Nabor Nunes - 1986



Exaustos de amor, adormeceram.
Tudo começou no exato instante
em que, ainda hesitante, se tocaram
e em seus mundos mil reações anunciaram
que o milagre dos milagres começara.

Despem-se os corpos e as almas,
e as excursões das mãos errantes,
por sobre as epidermes arquejantes
seguem caminhos pelo instinto conhecidos,
embora possam ser, nesse momento,
pela vez primeira percorridos.

Suspiros, murmúrios, interjeições,
não calculadas expressões
indicam claramente que as defesas
já cederam lugar às fraquezas;
deixam-se conduzir por convulsões
que resultam em crescentes confusões
de braços, pernas, bocas e joelhos,
de mãos, de dedos, ventres e artelhos.

Lábios são por lábios comprimidos,
peles são por unhas e dentes laceradas,
no fragor da busca pelo motivo único de viver.
E vivem!

Na alternância intermitente dos contrários,
no encontro da incoerência
entre a voracidade do desejo
e a ternura de um carinho,
vai crescendo a quintessência
airosa do bem-estar supremo.

Sucumbem, aos poucos, no frêmito
de movimentos cada vez mais vigorosos,
à mais doce e intensa sensação
que só aos deuses, por serem generosos,
pode-se atribuir a nós tal doação.
Mergulho total, completo
nos segredos, desejos e sonhos,
nos meandros dos mundos risonhos
do Criador.
Participação, momentânea, mas profunda
na magia da própria criação.

São dois em um
e cada um
em todos os seres do universo
no momento do mais sublime olor,
única condição de paz perfeita
entre o invadido e o invasor.

De repente, músculos, antes retesados,
relaxam-se alvejados
pela descarga nervosa do prazer intenso.
Embriagados pelo amor imenso,
desfalecem. Com sussurros e gemidos,
como numa oração, agradecidos
pela satisfação plena da carência,
deixam-se adormecer sem resistência.

Amanheceu!

Ele foi o primeiro a despertar
do sono profundo do orgasmo
e, ainda envolvido no marasmo,
solenemente pôs-se a contemplar
o belo corpo acalentado,
ao qual houvera há pouco se entregue
com sua vida, sua sorte, seu destino,
compartilhando em troca do divino
subjugar da eternidade a um só instante.
E agora eis que, ao seu lado,
quedava-se ressonante,
de paz e de candura transbordante,
qual um recém-nascido saciado.

E então, mui feliz e repousado,
expressou-se, sem pejo e sem remorsos:
Esta, afinal, da minha carne é carne
e osso inalienável dos meus ossos!


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Do livro ....PORQUE NÃO SEI FICAR QUIETO, www.clubedeautores.com.br.

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Para pensar: “Se Deus é amor, conforme já se disse, como explicar que, em nome de ambos, tanta perversidade se tenha cometido?” Nabor Nunes